Para os mais velhos era sempre um estorvo.
- E largar aonde essa menina? – Perguntava seu pai.
- Deixe com Lucas, ele cuida direitinho. – Respondia sua mãe.
Marcolina foi crescendo, daqui prá lá e de lá prá cá, comendo o que sobrava e querendo mais, tentando sem jeito falar de si, mas sem ninguém pra lhe dar ouvidos.
Jovenzinha ainda caiu no mundo. Com seu corpinho magro e liso, não demorou para que homenzarrões peludos a levassem pra cama dando-lhe apenas uns trocados ou um prato de comida vez por outra. Como ela não tinha mesmo um lar, nem seu próprio quarto ou sua cama quando criança; qualquer cama era boa, qualquer comida era bem-vinda e qualquer carinho lhe fazia bem. E entre carícias de estranhos, camas cheirosas e macias ou às vezes catres repugnantes, Marcolina foi se criando.
Esperta por que ouvia muito, foi formando suas opiniões sobre as pessoas que passavam por seu caminho. De algum lugar em sua mente surgia sua impressão de alguém: - Esse cara é bom, aquele não. Esse é honesto, aquele um trapaceiro. – Enganou-se muito, mas aprendeu.
Penou demais nas andanças, se arrependeu de alguma coisa, mas nunca soube que coisa foi essa. Chorou sozinha nos bancos das praças e nas estradas desertas. Pensou em voltar. Mas voltar pra onde? Seguiu em frente.
Um dia ela voltou. Moça bonita, forte, experimentada. Meio rebelde, muito pedante. Foi visitar seus irmãos que não saíram pelo mundo como ela.
Lucas vivia lá com seus rebentos, sem mulher, num entediante dia-a-dia de fazer e dizer nada e Carlão trabalhando feito burro de carga pra sustentar sua fome latente de satisfazer o próprio ego. Dois donos da mesma verdade: a de que a vida é assim mesmo.
E Marcolina ainda sentia aquele desejo de criança de deitar no colo dos irmãos e receber um bom cafuné e um beijinho na têmpora, e ainda uma dose de palavrinhas reconfortantes, qualquer mentirinha boba que fosse, como se para lembrar aquela canção de ninar que nunca ouvira. Mas que nada. E tinham tempo pra isso? Aliás, tempo tinham, o que não tinham era disposição. Se Marcolina já era um estorvo quando pequena imagine agora depois de moça formada. Prostituta sem futuro.
- Tome tenência em sua vida e siga os exemplos de seus irmãos, pois afinal somos donos da verdade. Não vai fazer que nem suas irmãs que continuam soltas pelo mundo. Bando de mulher vadia e sonhadora. É isso que você quer Marcolina?
- Eu só queria um abraço.
- Deixa disso Marcolina. Nessa família as mulheres já nascem fracas das idéias mesmo. Você tem que ser forte, como nós, senão não vai ter futuro não. Tem que pensar em sua vida menina, fazer como nós: trabalhar, trabalhar e trabalhar.
- Vocês estão certos. – Dizia Marcolina meio frustrada.
E Marcolina saía de novo para o mundão, pois ali, apesar da vida dura, pelo menos sempre haveria algum marmanjo interessado em seus dotes para lhe abraçar e lhe sorrir. Não demorou enterrar-se também nas drogas. Uma carreirinha de cocaína e já nem precisava deitar na cama de ninguém.
- Que cama que nada, eu vou é subir o morro!
Descobriu que a cocaína lhe fazia muito bem. Cavalgava feito louca sobre sua destemperança enquanto trilhava mais uma carreira. Quando descobriu que podia ganhar uns trocos a mais com o maldito pó, se alegrou. Dinheirinho bem vindo pra alegrar a sobrinhada com presentes.
Agora Marcolina já era uma mulher madura, tinhosa, malandra. Já não queria mais deitar com homem nenhum. Empacotou sua carência de vez. Casou-se, arranjou um trabalho honesto e um bom homem pra lhe acalentar sinceramente.
E quem dizia que boa mãe não seria se enganou. Seu filhinho é educado sim e todo dia recebe de presente um pouco do carinho que sua mãe ganhou no mundão. Olha agora com um inconveniente desprezo para seus irmãos. Lamenta a memória de seus pais e vive plantando boas idéias na cabeça dos outros.
Marcolina enfim descobriu que seus irmãos não tinham nada de tão errado, só eram criaturas tão carentes quanto ela, inseguras e quase sempre incapazes de amar.