Páginas

domingo, 17 de outubro de 2010

A Bola de Ouro

Certo dia um mendigo chegou num bar chique, onde fazendeiros e negociantes bebiam uísque do bom, e timidamente abordou um homem, perguntando:
- Moço, o sinhô sabe quanto vale uma bola de ouro maciço desse tamanho assim, ó.
E fez o gesto com as duas mãos mostrando uma bola do tamanho de um côco.
Antes de o homem responder, um fazendeiro de olho-grande do outro lado que ouviu a pergunta, chamou o pobretão:
- Ô rapaz, chegue aqui. Quer tomar alguma coisa?
O rapaz timidamente aceitou.
- Peça aí o que quiser moço. Garçom! Por favor!
- Eu só queria saber quanto vale...
- Depois a gente conversa – interrompeu o senhor abastado. – Quer comer alguma coisa? Pode pedir o que quiser.
- Quero não sinhô. Eu só queria...
- Vamos jantar lá em casa, rapaz. Aproveite e tome um banho e troque de roupa. Vamos lá! Vou pegar minha caminhonete.
O mendigo embasbacado entrou naquela caminhonete de luxo e acompanhou o fazendeiro até sua casa. Chegando lá o homem já ordenou a empregada:
- Minha filha, providencie um bom banho pra esse moço e lhe dê uma roupas novas, tudo de primeira, hein!
O mendigo não podia acreditar. Tomou uma boa ducha, lavou os cabelos com xampu, escovou os dentes, passou perfume. Ficou novinho em folha.
- Que belezura moço! Tá um novo homem. Vamos jantar!
- Vamo, sim sinhô.
- Você quer peixe, carne de vaca, de porco ou frango. Você escolhe.
- O que tiver ta bom.
- Gosta de picanha?
- Ô!
- Então vou mandar preparar uma picanha agora mesmo! Serafina! Mande o churrasqueiro botar uma picanha pra assar agora! – Virando-se para o mendigo: - Você prefere bem passada, no ponto ou sangrando?
- Acho que no ponto ta bom, né?
- Ouvisse? No ponto, hein! E mande preparar uns drinks pra gente enquanto isso. – De novo virando-se pro mendigo:
- O que você quer tomar, meu jovem? Uísque, cerveja, vodka, vinho. Tem o que quiser aí, pode pedir.
- Acho que um uisquizinho ta bom, né?
- Serafina, bota aquele uísque 21 anos pro nosso convidado. – E para o mendigo: - Quantas pedras de gelo?
- Duas pedrinhas ta bom, né?
- Vamos minha filha, ta esperando o que? Uísque no capricho com duas, d-u-a-s pedras, não vai errar, hein!
Bebericaram seus drinks e logo foram jantar. O mendigo se esbaldou em arroz, feijão, salada e claro: aqueles medalhões suculentos de picanha. Mal podia falar tamanha era sua voracidade diante do prato de comida. O fazendeiro voltava a lhe encher o prato:
- Coma aí rapaz! Não tem miséria, não! Se quiser mais alguma coisa, é só pedir.
- Acho que se tivesse mais um pouquinho daquela saladinha de palmito, eu aceitava sim sinhô.
- Severina! Traga já aquela salada de palmito no capricho pro nosso convidado. Vamos!
Com o bucho repleto, o mendigo afrouxou o cinto novo de couro que estava usando, empurrou o prato pra um lado e deu um belo arroto. O fazendeiro estendeu o paliteiro na sua direção e perguntou:
- Que tal uma sobremesa? Tem sorvete, pudim, mousse,  torta. Pode pedir o que quiser!
- Acho que um pudinzinho vai bem, né?
- Severina! Prepara um pudim no capricho pro nosso convidado. -  E virando pro mendigo: - você prefere pudim de leite, de côco, de limão, ou algum outro? Você que manda rapaz!
- Se tiver de leite ta bom demais da conta.
- Cadê o pudim Severina. Se adiante!
E o mendigo se deliciou com quase toda a bandeja de pudim.
Depois do pudim ainda teve o licor e o cafezinho e o mendigo achou que nunca tinha feito uma refeição tão completa na sua vida. O fazendeiro o chamou pra varanda, sentaram-se numas cadeiras grandes, almofadadas, confortáveis e o fazendeiro perguntou:
- Quer fumar? Tem charuto cubano, cachimbo, cigarro de papel e de palha. Pode escolher!
- O sinhô sabia que eu nunca fumei charuto cubano? Diz que é bom demais da conta, né...
- Severina, traga charuto pra esse homem. – E virando-se pra ele: - Tenho aí Cohiba, Montecristo, Bolívar. Pode escolher!
- Acho que qualquer um ta bom, né.
- Traga o Cohiba pro moço Severina. Um pé cá e outro lá, hein.
O fazendeiro preparou o charuto, estendeu pro mendigo, pegou seu grande isqueiro dourado e acendeu o charuto do mendigo. Depois deu umas duas baforadas no seu próprio charuto e ficou observando a lua cheia no horizonte. O mendigo sentado ao seu lado não fazia idéia do que estava acontecendo, era como um sonho. Sentado naquela grande cadeira ao lado do fazendeiro, ele estava quase pegando no sono quando o homem tocou de leve seu braço e sussurrou:
- Cadê a bola?
- Ãh... – Balbuciou o mendigo sonolento.
- Cadê a bola? – Falou ainda mais baixo o fazendeiro.
- Bola?
- A bola rapaz... A bola de ouro?
- Bola de ouro? – O mendigo estava confuso. O fazendeiro riu baixinho e deu uma cotovelada de leve no mendigo:
- Ora, homem de deus! A bola de ouro.
- Ôxe meu sinhô... Que bola de ouro?
- Você ta brincando rapaz? Como assim “que bola de ouro”? Aquela que você queria saber quanto valia lá no bar.
- Ah, sim! – O mendigo deu uma gargalhada. Agora era o fazendeiro que não entendia nada, mas começou a rir também.
- Isso mesmo homem. Então, cadê a bola?
- Meu sinhô, – disse o mendigo enxugando as lágrimas de tanto rir – eu só perguntei quanto valia pra que se um dia eu tivesse uma bola dessas já ficar sabendo por quanto vender.
- Tu ta me dizendo que não tem uma bola de ouro maciço então?
- Vixi, tenho não sinhô. Se eu tivesse uma bola dessas eu tava bem de vida, né não?
- Você prefere sair daqui jogado pela porta ou pela janela? Você escolhe!
- Faça isso não, sinhô...
- Severina, mande o segurança botar esse cara pra fora – E virando-se para o mendigo – Cala a boca e vai tomar no seu cú, seu filho da puta mentiroso e sem vergonha.